Previdência: governo quer agradar os ricos e atacar os pobres
Lutar contra a reforma da Previdência é defender os direitos dos trabalhadores Intersindical – Instrumento de Luta e Resistência da Classe Trabalhadora
A reforma da Previdência gestada pelo ministro da economia Paulo Guedes – que ao presidente caberá apenas anunciar e fazer propaganda – tem como objetivo retirar direitos dos mais pobres para garantir ainda mais os privilégios dos mais ricos.
O fundamental da reforma, além de aumentar a idade para aposentadoria de homens e mulheres, é acabar com a regra básica da Previdência, ou seja, o princípio da solidariedade em que todos contribuem: o aposentado contribuiu ao longo de seu tempo de trabalho e os que estão no trabalho hoje contribuem solidariamente para garantir as aposentadorias de agora e as do futuro.
A proposta do governo, travestida de “poupança individual”, na verdade é entregar para os bancos privados a contribuição individual do trabalhador. Além disso, a contribuição passa a ser somente do trabalhador; nesse modelo não existe a contribuição patronal para a Previdência.
O modelo foi copiado do Chile da época do ditador Augusto Pinochet. Depois de mais de três décadas, os trabalhadores chilenos que agora estão aposentados sentem as consequências do que significou essa reforma: não conseguem sobreviver com a aposentadoria que, em muitos casos, é a metade do valor do salário mínimo do país. As consequências são tão avassaladoras nas vidas dos trabalhadores e suas famílias que o índice de suicídios de aposentados no Chile aumentou.
Outras medidas estão sendo preparadas pelo governo para piorar ainda mais o acesso aos benefícios previdenciários como, por exemplo, excluir da contagem para aposentadoria o tempo em que o trabalhador ficou afastado por motivo de doença ou acidente. É mais uma tentativa de eliminar funções básicas da Previdência, que, além de garantir a aposentadoria, também deve garantir assistência ao trabalhador quando não está trabalhando, impedido por problemas de saúde.
O objetivo também é dificultar ainda mais o direito à aposentadoria dos trabalhadores rurais, ao mesmo tempo em que, para o agronegócio, o governo busca formas de pôr fim às fiscalizações das condições de trabalho e de respeito aos direitos trabalhistas e de liberar geral a invasão das terras indígenas e quilombolas.
Não são poucas também as tentativas do governo de piorar o acesso dos portadores de necessidades especiais e de idosos de baixa renda ao Benefício de Prestação Continuada, o BCP. Além disso, quer pôr fim ao auxílio reclusão, um benefício previdenciário concedido aos filhos de pessoas encarceradas.
Nenhuma dessas medidas que o governo Bolsonaro pretende impor ataca o calote das empresas à Previdência, que já ultrapassa R$ 400 bilhões.
Também não há nenhuma alteração nas aposentadorias dos militares, aposentadorias que custam 17 vezes mais ao Estado do que os benefícios e aposentadorias dos trabalhadores nas empresas privadas. Os militares que já nos governos anteriores se colocavam contra qualquer alteração em suas aposentadorias, agora sendo parte do atual governo, a cada dia se revezam para defender seus interesses corporativos.
Enquanto o governo quer avançar contra direitos dos trabalhadores e dos mais pobres, mais de 140 deputados e ex-deputados – incluindo Jair Bolsonaro – poderão, a partir do mês que vem, pedir sua aposentadoria, que é muito superior ao teto do INSS: aproximadamente R$33 mil. No caso de Bolsonaro, ele poderá acumular com o salário de presidente, que é de R$ 30.934,70.
Ao ser questionado se o presidente vai entrar com o pedido de aposentadoria, a resposta do governo foi o silêncio.
A proposta de reforma da Previdência está acompanhada também do aprofundamento do ataque aos direitos trabalhistas. A tentativa de criação de uma nova Carteira de Trabalho, sem piso salarial e sem direitos, a restrição à atuação do Ministério Público do Trabalho e a intenção de pôr fim à Justiça do Trabalho fazem parte do pacote do governo de acabar com os direitos garantidos através de muita luta.
O caminho para impedir esse ataque brutal aos direitos segue sendo a luta dos trabalhadores: em cada local de trabalho, moradia e estudo é preciso fazer avançar a mobilização que crie as condições de uma luta geral do conjunto da classe trabalhadora.
É nisso que estamos empenhados em unidade de ação com todas as Organizações que de fato estejam dispostas a enfrentar os ataques do governo aos direitos da classe trabalhadora.
THE INTERCEPT BRASIL
Entrevista de Maria Lúcia Fatorelli para o Programa Faixa Livre PROGRAMAFAIXALIVRE.COM.BR O alardeado plano do Governo Federal de aplicar o modelo de capitalização para a Previdência Social preocupa alguns dos principais especialistas em finanças públicas do Brasil, especialmente pelas experiências malsucedidas em outros países. A auditora aposentada da Receita Federal e coordenadora da Auditoria Cidadã da Dívida Maria Lucia Fattorelli esteve no estúdio do Faixa Livre e apontou os perigos desta modalidade, na qual cada trabalhador contribui para uma espécie de poupança individual, e os reais beneficiários do plano da equipe econômica de Jair Bolsonaro. “É um modelo de altíssimo risco, só é bom para o mercado financeiro que recebe as contribuições e não tem responsabilidade alguma de garantir um benefício futuro para os trabalhadores. Esse modelo individualista não tem nem lógica semântica. Se olharmos no dicionário, previdência é sinônimo de segurança. Qual é a lógica de colocarmos a nossa segurança em aplicações de alto risco e que não garantem absolutamente nada no futuro? O benefício pode ser zero e até negativo, como agora os trabalhadores que se associaram à Postalis e à Petros estão tendo de aportar recursos”, ressaltou. A auditora se refere aos fundos de pensão dos Correios e da Petrobras, respectivamente, que acumularam prejuízos milionários e são investigados pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal por má gestão. No Chile, o modelo de capitalização implantado no início da década de 1980 durante a ditadura de Pinochet fracassou, levando os aposentados a um quadro alarmante de penúria financeira, indigência e até uma série de suicídios. “O Chile foi muito elogiado quando implantou esse sistema porque a banca controla a mídia e o mundo inteiro. Se você fizer uma pesquisa, há vários artigos elogiando o sistema de capitalização implantado lá. O que aconteceu dentro de alguns anos, o sistema quebrou. O Estado retomou a Previdência, porém em um patamar reduzidíssimo, inferior ao salário mínimo brasileiro, é o que os aposentados recebem”, alertou Maria Lúcia Fattorelli. A tentativa de se reformar a Previdência no Brasil nos últimos anos já sinalizou para uma série de justificativas: “Essa proposta, quando foi apresentada inicialmente, atacava principalmente o regime geral, a desculpa era o déficit e a longevidade da população. Todos esses argumentos foram totalmente desmontados e, em um segundo momento, o governo começou a atacar o serviço público, falando que os servidores é que eram privilegiados. Agora, em uma terceira etapa, vem essa proposta de capitalização”. Além do ataque às aposentadorias dos trabalhadores brasileiros, o grande capital travestido de governo ataca em outras frentes no parlamento para abocanhar recursos que têm destinação carimbada para a área social. “Há uma proposta de Emenda Constitucional em andamento no Congresso que é a PEC 293, a tal da reforma tributária simplificada. Por trás desse discurso de simplificação, ela transforma a maior arrecadação do país que é a da Cofins, e também o PIS, que é o Programa de Integração Social, fontes importantíssimas da seguridade social, em imposto. Só que essa mudança da natureza do tributo acontece justamente para essa desvinculação. Pela Constituição, as contribuições são vinculadas”, lembrou Maria Lucia Fattorelli. Uma das propostas da auditora para minimizar o déficit financeiro e diminuir as desigualdades no país passa por uma iniciativa simples do Governo Federal para movimentar a economia. “Atualmente, temos R$ 1 trilhão e 200 bilhões, quase 20% do PIB entesourados, paralisados no Banco Central nas operações compromissadas, remunerando a sobra de caixa dos bancos e amarrando a economia brasileira, porque na medida em que o Banco Central aceita toda essa sobra de caixa, ele gera escassez de moeda no mercado, o juro de mercado vai para essa taxa indecente que quebra a indústria, o comércio, impede qualquer iniciativa. Entre 2014 e 2017, foram gastos com essas operações compromissadas R$ 449 bilhões que saem do orçamento para os bancos”, citou. “Se o Banco Central parasse de aceitar essa sobra de caixa e deixasse o dinheiro no caixa dos bancos, eles iriam querer emprestar, e, para emprestar, teriam de diminuir a taxa de juros. O que seria da economia hoje irrigada com R$ 1 trilhão e 200 bilhões a uma taxa de juros baixa? Acabou a crise”, explicou a coordenadora da Auditoria Cidadã da Dívida. Ouça a entrevista de Maria Lucia Fattorelli na íntegra: https://soundcloud.com/programafaixalivre/fl-22-01-2019_5-maria-lucia Entrevista em 22.01.2019
Por Jones Manoel