quinta-feira, 7 de maio de 2009

FOME NO MUNDO


ALIMENTAÇÃO:
Ativistas cobram ações contra a fome
Tito Drago

Madri, 2009, (IPS) - Na Reunião de Alto Nível Sobre Segurança Alimentar Para Todos, que acontece hoje e amanhã em Madri, se deverá passar das palavras aos fatos, para que se combata efetivamente a fome que afeta milhões de pessoas nos países menos desenvolvidos.

Foi o que disse à IPS Eduardo Sánchez, membro da Junta Diretora da Coordenadora de Organizações Não-governamentais da Espanha (Congde) e que a representará na reunião.

O encontro, convocado e organizado pelo governo espanhol, buscará uma maneira para resolver os problemas, “porque a crise econômica mundial não acabou com a crise alimentar, mas a exacerbou e complicou a situação”, disse o coordenador da Organização das Nações Unidas para esta questão, o britânico David Nabarro, em entrevista coletiva em Nova York.

Presidida pelo primeiro-ministro espanhol José Luis Rodríguez Zapatero, e pelo secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, a reunião foi projetada para analisar o cumprimento, ou não, dos acordos aprovados na cúpula da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) realizada em junho de 2008 em Roma. Um desses acordos consistia nos compromissos financeiros assumidos pelos 181 países ali representados, para apoiar as agências internacionais que lutam contra a fome. Para ajudar mais de cem milhões de pessoas que necessitam de ajuda emergencial em 2009 o Programa Mundial de Alimentos (PMA) precisa de US$ 5,2 bilhões.

Sánchez disse que, “se não se levar a sério o problema da fome que afeta milhões e milhões de pessoas no mundo, se continuará sem colocar em ordem o sistema mundial e daí continuará derivando os demais problemas”. O mas grave, acrescentou, é que no setor agropecuário dos países do Sul se continua dando prioridade aos cultivos de produtos para exportação e não aos que poderiam satisfazer a fome de suas populações. Por isso os organizadores do encontro na capital espanhola destacam que dois serão os temas mais importantes, sobre os compromissos assumidos em Roma.

O primeiro foi “utilizar os meios para minimizar o sofrimento causado pela crise atual, estimular a produção de alimentos e incrementar o investimento em agricultura”. O segundo foi apoiar o Contexto Ampliado para a Ação, elaborado pelas Nações Unidas e pela FAO, que representa um plano priorizado de ação para “satisfazer as necessidades imediatas das populações vulneráveis e enfrentar os fatores estruturais subjacentes na crise alimentar”. Sánchez diz que nesse sentido não se avançou, entre outras coisas porque nas reformas estruturais com as quais se comprometeram os governos não se realizou a de apoiar os pequenos produtores dos países do Sul, já que, em geral, neles “a agricultura é planejada para exportar e não para produzir alimentos para seus habitantes”.

Sobre seu papel em Madri, disse que como representante das organizações não-governamentais foi convidado, esclarecendo que não está incluído nas comissões de trabalho, mas sendo um dos convidados especiais. Na opinião de Sánchez, não se deve repetir debates de reuniões anteriores, mas tomar decisões políticas “e que os governos cumpram aquelas que forem adotadas”. Perguntado pela IPS se o governo espanhol é dos que não cumprem, respondeu que o mesmo fez um esforço e comprometeu recursos, que está entregando, o que considera muito positivo.

Sobre o novo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, afirmou que será útil para a promoção do desenvolvimento, pois tem um enfoque multilateral e, se cumprir seus compromissos, “poderá haver mais interações globais e uma delas deverá ser a alimentação. Os países ricos têm uma grande responsabilidade nisso”, ressaltou Sánchez.

A organização não-governamental Direito à Alimentação informou que em 2008 chegou a 963 milhões o número de pessoas famintas, superando a cifra de 2007, que foi de 923 milhões, que os governantes se comprometeram a reduzir, o que não fizeram. Além disso, a organização afirma em seu comunicado que a agricultura perdeu importância nos orçamentos públicos, passando da média de 18% no plano de gastos nos 80 países para 3% ou 4% atuais. Os compromissos, como o Plano de Ação da Cúpula da Alimentação (1996) ou as Diretrizes Voluntárias para o Direito à Alimentação (2004) não foram cumpridas em sua totalidade “pela falta de vontade política”.

Por isso, e diante da reunião em Madri, exige dos governos “orientar a luta contra a fome a partir do enfoque da realização do direito humano à alimentação”. E que se identifique “quais são os famintos e por que o são”, ao mesmo tempo em que cobra o fim das “condições que geram a vulnerabilidade” e se coloque “em um lugar central nos programas de desenvolvimento econômico uma agricultura cuja finalidade seja garantir a segurança alimentar”.

Os organizadores da reunião têm em conta o grande objetivo das Nações Unidas, que é fortalecer esforços para reformar o sistema mundial de produção de alimentos, com a finalidade de responder às necessidades dos mais pobres e dos pequenos produtores. Isso inclui proporcionar às pequenas explorações agrícolas em países em desenvolvimento materiais essências, como sementes e fertilizantes, e facilitar seu acesso competitivo aos mercados.

“Nossa preocupação é conseguir que os pequenos agricultores possam explorar ao máximo seu potencial, comercializar seus produtos e receber um preço adequado por eles”, resumiu Nabarro. Entre outras coisas, será solicitado aos países doadores que aumentem sua ajuda ao desenvolvimento da agricultura nas regiões mais empobrecidas do planeta, já que na atualidade somente 3% da mesma são destinados à agricultura. Nos próximos dias se terá a resposta. (IPS/Envolverde)

(FIN/2009

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