
Os náufragos
Para Ignácio de Loyola Brandão
Só com as águas no teto
saíram
para o deserto.
Deus não quis esta terra
que expunha a nossa miséria.
E arrastou-a no bojo
do vômito, com santo nojo
. Deus não quis esta terra.
E a fúria levou, piedosa,
crianças tuberculosas.
Restos de pão, e a mesa
manchada de lágrima azeda.
Homens que geravam sobre
uma dúzia de tábuas podres.
E a mãe que pede, sofrida,
para uma imagem encardida.
Salvou-os a enxurrada
de suas vidas de nada.
No meio da correnteza
ia uma estranha riqueza:
brincos lavrados em lata;
sandália dourada, gasta;
bonecas de pano, cegas;
romances de amor piegas;
cordões de um ouro ingrato;
relógios que foram, de fato.
E ainda preso à madeira
um velho Cristo de cera.
As águas caem como dardos
nos olhos dos afogados
e engrossam a margem do rio
arrebentando o plantio.
Deus não quer esta gente
que grita por Deus Clemente!
Talvez com dó de seus pratos
sujos da baba dos ratos,
e das obscenas paredes,
e dos sepultos nas redes.
Que eram já transparentes
para os seus olhos doentes.
Um dia, com as águas vencidas,
e as luzes de Deus distraídas,
todos voltarão meninos
dos becos de um céu sem hinos.
Silentes, refazem as cabanas
no mundo de lodo e lama
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