Terrorismo de
Estado
Terça-Feira,
08/05/2012 por Mário Maestri
As revelações são
terríveis, pela total desumanidade e enorme barbarismo. Mas não são novidades.
Ainda que parcialmente ignoradas, são larga e substancialmente conhecidas,
desde sempre. Sabemos os nomes de quase todas as vítimas e de boa parte dos
algozes. No geral, faltam apenas as circunstâncias de crimes comumente
inomináveis. Dezenas de corpos de vitimados restam insepultos para seus familiares, companheiros, conhecidos e amigos.
O paradoxo seria a
impunidade absoluta dos responsáveis por tais atos abomináveis. Eles foram
promovidos profissionalmente; encontram-se ainda em elevados cargos;
aposentaram-se e reformaram-se magnificamente; morreram na santidade da paz dos
inocentes, jamais incomodados; alguns foram e seguem sendo homenageados com o
nome de ruas, praças, avenidas e escolas.
Compreende-se tal
despropósito. Não se trataram de crimes comuns. Foram ações criminosas
realizadas ao abrigo e com o apoio das instituições estatais, contra cidadãos e
cidadãs nacionais e estrangeiros inermes, para se obter ganhos sociais,
econômicos, políticos, etc. Foram atos praticados com o apoio de enorme parte
da mídia, da alta hierarquia da Igreja, da justiça e do legislativo
nacionais. Os crimes e os criminosos foram defendidos direta ou tortamente por
intelectuais abrigados à sombra do poder e contaram com o apoio incondicional –
e comumente material – de industrialistas, banqueiros, latifundiários.
Nos milhares de
martirizados, feriram-se profundamente as carnes da população brasileira,
expropriada fortemente em seus direitos e conquistas, não raro para sempre. A
lista é longa: após aqueles fatos, jamais o salário mínimo recuperou seu valor;
perdeu-se o pouco de estabilidade no trabalho que se possuía; passou a dominar
o ensino, a saúde, a segurança, etc. privados e pagos. Tudo em proveito dos
eternos donos das riquezas e do poder deste país.
Os crimes de Estado
não são prescritíveis ou auto-anistiáveis. A anistia ditada pelos militares,
para civis e militares criminosos, sancionada por parlamento subserviente, não
possui valor legal e moral. É farsa que segue vigente apenas por que encobre
crimes de Estado, protegidos e referendados por Estado sempre sob o controle
das mesmas classes e interesses que promoveram e sustentaram o regime
ditatorial.
A cumplicidade das
instituições estatais constitui sanção política e moral àqueles crimes, através
da qual se cultua a memória da violência e do despotismo contra os
trabalhadores e opositores e se mantém sobre a população a eterna ameaça de que
tudo pode voltar a ser como antes, se necessário. Em repouso na parede da
casa-grande, o chicote do feitor lembra aos negros da senzala que está sempre
pronto para cantar!
Desde a redemocratização, em 1985, o culto e a defesa da impunidade e do
crime dão-se sob forma surda e explícita. Na historiografia, proliferam
leituras revisionistas desculpando e justificando a ditadura; desqualificando a
resistência; criminalizando as vítimas, etc., aqui e ali, promovidas por algum
ex-resistente, regiamente recompensado por se aninhar sob a asa protetora do
poder.
A grande imprensa
cala e confunde; defende o perdão e o esquecimento e ataca orevanchismo;
desqualifica os resistentes e a resistência. O golpe militar deu-se contra o
golpe civil em marcha, dizem. Tudo foi uma guerra, e a guerra é sempre suja, afirmam. Sempre a serviço dos poderosos, a
Justiça reitera imperturbável que a farsa da anistia não pode e não deve ser
tocada, ferindo a jurisprudência mundial e os direitos inarredáveis da
população brasileira.
O poder
legislativo, federal, estadual e municipal, mantém-se majoritariamente em igual
posição. Há poucos meses, a câmara municipal de Porto Alegre rejeitou reparação
moral à cidade, negando-se a rebatizar com o nome do governador Leonel Brizola,
avenida porto-alegrense que segue homenageando o primeiro general-ditador.
Votaram contra a proposta vereadores do PP, do PSDB, do PTB, do PDT, do PPS...
O poder é cínico.
Desde 1985, o poder presidencial mantém-se na férrea proteção da impunidade.
Para governar o país em nome dos poderosos, é necessário ajoelhar-se diante dos
mesmos. Não há paradoxo em que FHC e Lula da Silva seguiram na posição vil,
mesmo tendo sido o primeiro demitido do trabalho pela ditadura, e o segundo,
preso brevemente durante as grandes greves operárias de 1979.
Não há contradição
que a senhora Dilma Rousseff, objeto de inomináveis sevícias, abrace a defesa
dos algozes, agora através de comissão de mentirinha, para esclarecer
superficialmente os fatos, sem qualquer punição dos mesmos. Tudo para diminuir
a pressão nacional e mundial pela inculpação de criminosos de Estado, que
avança na Argentina, Uruguai, Peru, etc. Eles pouco se importam que, ao
proteger os criminosos, tornam-se cúmplices morais dos crimes.
Segue cabendo
apenas ao povo brasileiro o dever incontornável de enterrar, algum dia, os
cadáveres insepultos de seus combatentes, através do castigo exemplar dos
algozes, em homenagem às memórias dos golpeados e em defesa de seus interesses
sagrados – passados, presentes e futuros.
· Mário Maestri, 63, é historiador e professor do Curso e do Programa de
Pós-Graduação em História da UPF. maestri@via-rs.net
Partido Comunista Brasileiro – Fundado em 25 de Março de 1922
Postagem de : Luiz Navarro
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