O filme de terror do ano não é uma ficção
Por Dodô Azevedo
13/03/2019 11h51 Atualizado há 4 dias
Cláudio
Guerra e os desaparecidos — Foto: Divulgação
O grande filme de
terror do ano não é uma ficção. É um documentário brasileiro no qual um
assassino confesso detalha como matava e incinerava os corpos de militantes
brasileiros de esquerda a mando da extrema direita, em ligação clandestina com
nosso governo federal e setores da elite de nossa sociedade civil.
O grande filme de
terror do ano não é uma ficção. Nele, o matador Claudio Guerra, explica
friamente que não cometia os assassinatos por ódio aos militantes de esquerda.
Apenas cumpria ordens. Era leal aos mandantes dos crimes. Com isso, recebia em
troca, além de bônus salariais depositados em contas clandestinas falsificadas
pelos próprios bancos que financiavam seu grupo de extermínio, presentes como
casas de praia e fazendas, o que lhe garantiam uma boa vida. Em certo momento,
revela o lugar onde os militares escondiam clandestinamente centenas de fuzis
de última geração usados para o combate a militantes de esquerda.
O grande filme de
terror do ano não é uma ficção. Exibe uma longa conversa entre o ex-delegado do
DOPS Claudio Guerra, que nos anos 70, matou e ocultou corpos de militantes de
esquerda durante a ditadura civil militar instalada no Brasil. "Pastor
Cláudio", dirigido por Beth Formaggini, que entra em cartaz nesta
quinta-feira nos cinemas, escandaliza e aterroriza o espectador não pelo o que
é nele revelado. Mas por não nos surpreender. Tudo ali já desconfiávamos. Já
até sabíamos. Mas não fizemos, como sociedade civil, nada para contestar. Fomos
cúmplices. Somos cúmplices. As denúncias do Pastor Guerra já foram inclusive
investigadas e confirmadas pela Polícia Federal, poucos anos atrás. Nosso
reflexo é insuportável.
O grande filme de
terror do ano não é uma ficção. E não fala apenas do passado. Claudio Guerra, o
matador arrependido que tornou-se pastor evangélico e fala o tempo inteiro com
uma Bíblia na mão revela que a máquina de extermínio criada durante a ditadura
civil militar não parou de funcionar com o fim do regime. Seguiu como máquina
de extermínio "da bandidagem carioca", na prática pobres de
periferia, e transformou-se, no Rio de Janeiro, em organizações fundadas por
militares que com o intuito de provir segurança paralela para empresas e
comunidades e a contravenção do jogo do Bicho. Tempo em que as milícias
surgiram como organizações fundadas por militares, prometendo provir segurança
paralela para empresas e comunidades.
Durante a conversa,
o assassino arrependido Claudio Guerra nos impressiona por sua firmeza e
convicção de que, revelando seu passado infernal, está agradando a Deus. Sem
constrangimento, e sem desgrudar-se da Bíblia, chega a simular a pose de como
executou com um tiro na cabeça um dos presos que agonizava após sessões de
tortura.
Pastor Guerra
também revela as táticas terroristas que o governo militar brasileiro utilizou-se
ao executar um atentado a bomba na OAB, tentar matar milhares de pessoas em um
show no Riocentro para, segundo ele, colocar a culpa em militantes de esquerda
e, com detalhes forenses, informa que nomes como Zuzu Angel e Wladmir Herzog
foram de fato assassinados pela ditadura.
Mas se Claudio
Guerra matou, quem mandou matar?
A pergunta que
sempre fica: quem mandou matar?
Aparentemente
corajoso. O Pastor Claudio entrega o nome de seu chefe imediato: o Coronel
Freddie Perdigão, citado inúmeras vezes durante a conversa exibida. Mas,
repentinamente, o sereno e concentrado Claudio se distrai, e começa a entregar
todo o esquema e organização por trás dos militares. Um grupo secreto de
empresários e membros de nossa elite que se auto intitulam "A Irmandade".
São eles que, segundo o ex-assassino, financiam todo o vai e vem do poder no
país. Em encontros escondidos em, por exemplo, casas de prostituição de luxo,
"A Irmandade" decide, até hoje, quem vive e quem morre, quem controla
que parte da cidade. Nesse momento, percebendo o perigo, percebendo que mexeu
com gente grande, a boca de Pastor Claudio começa a tremer de medo, as palavras
começam a fraquejar, ele percebe, quer voltar atrás, e é ele mesmo tomado pelo
terror que informa.
Mas Cláudio Guerra
não pode voltar atrás. Ele sabe que a única garantia de estar vivo é contando
tudo o que sabe, tornando-se uma pessoa mais pública possível. Ao mesmo tempo,
o espectador percebe que também não pode mais voltar atrás. Agora ele,
espectador, também é "uma pessoa que sabe demais".
Mas o que fazer com
a informação nos confirmada pelo filme "Pastor Guerra"? Sair às ruas?
Junto com quem, se há, em nossa sociedade uma maioria de cúmplices, até
apoiadores destes crimes? Sai-se aterrorizado da sessão. O que nos aterroriza
nos paralisa?
Eduardo Passos,
psicólogo deleuziano e ativista dos direitos humanos, que trabalha com
assistência a vítimas de violência do estado, é o entrevistador do assassino.
Acaba se tornando um personagem, uma espécie de Virgílio que nos guia à descida
ao inferno dantesco. Entre profundas e insolúveis questões éticas, Eduardo, em
certo momento, percebe em Claudio Guerra, assassino arrependido, um muito bem
escondido gozo e orgulho em seu entrevistado. Ao saber que a equipe de Claudio
Guerra, quando recebia um cadáver embrulhado em um saco preto para incinerá-lo,
resolvia sempre abrir o saco para ver o estado do corpo, insiste no assunto. E
ouve: "Inclusive uma vez veio dentro do saco o corpo de uma mulher que
havia sido torturada por militares, nós abrimos e verificamos que ela havia
sido estuprada".
O grande filme de
terror do ano não é uma ficção.
É um trauma.
Na Bíblia que o
pastor Cláudio Carrega há inúmeros episódios onde Deus castiga o povo por suas
escolhas. Pela sociedade que decidiu construir. O dilúvio, a torre de Babel,
Sodoma e Gomorra, as cinzas que os judeus têm que comer para aprender a não
venerar falsos ídolos, falsos mitos.
"Pastor
Cláudio", o filme, o trauma, são as cinzas que temos todos, agora, como
consequência, amargarmos em conjunto.
Se ainda quisermos
alguma salvação.
Se ainda quisermos
alguma humanidade.
Selo
blog Dodô Azevedo — Foto: Arte/G1
Nenhum comentário:
Postar um comentário