EDUCAÇÃO NO AMAZONAS
Símbolo de vergonha e atraso
Publicamos nesta edição um depoimento de uma jovem indignada com a questão educacional. E que, com absoluta certeza, não é um desabafo isolado. Trata-se de uma denúncia que revela o estado caótico que a gestão da questão educacional de Manaus e do Amazonas e que traduz o descaso com que o poder público encara esta delicada, sagrada e decisiva questão. Com esse estado de coisas iremos a lugar algum e se o Amazonas pretende planejar seu futuro e espera a transformação de suas riquezas e conquistas em prosperidade social, estamos no caminho errado. Transformar é investir na educação e qualificação das pessoas. Esta foi a fórmula, única e funcional, desde a antiga Grécia. Não podemos seguir adiante, a não ser na direção do abismo entre os espertos e os excluídos a não ser parando tudo para acertar e consertar a questão educacional.
Panacéia e tragédia escolar
Recentemente, com um auditório da prefeitura completamente lotado, o prefeito Amazonino Mendes anunciou a mudança de comando do setor educacional. Saiu Terezinha Ruiz, uma profissional extremamente gabaritada cujo pecado mortal foi querer fazer política dentro das escolas e seus correligionários pediram sua cabeça e entrou um técnico da maior respeitabilidade e qualificação, Vicente Nogueira, como se apenas isso fosse a panacéia para todos os males do ensino municipal. Um engano. Não é uma pessoa ou uma equipe que pode mudar o cenário de descaso. É a atitude. E nos 12 anos de mandato de Amazonino, governador, o ensino desceu a ladeira do descaso e do esvaziamento. E nunca mais se recompôs. A gestão do ensino, hoje entregue a Gedeão Amorim, é uma tragédia. E o Amazonas ocupa os últimos lugares na questão do ensino em todo o país e nos países do mundo inteiro.
O depoimento postado na Internet
Hoje, com 19 anos não tenho o porquê de falar um "ai" torto sobre a vida que meus pais têm me dado. Assim como eles nunca me deixaram faltar o básico (comida, educação e amor), eles também sempre se preocuparam em colocar no meu caminho pessoas que pudessem me dar o carinho necessário enquanto eles não estivessem presentes. Pois bem, é sobre isso que eu quero falar hoje: pessoas no meu caminho.
Tonha, ou Antônia, é a senhora que trabalha aqui em casa. Eu digo "trabalha", porque chamá-la de empregada não é legal. Enfim, a Tonha é uma das pessoas mais incríveis que já entraram nesta casa. Ela é um ser dotado de um dom que poucos possuem: ela é prestativa sem pedir nada em troca. Ela adora ajudar; adora fazer umas surpresas pra gente; limpa tudo sempre sorrindo e vive contando os "causos" na maior animação. Coisa que, às vezes, até nos assusta, porque a vida da Tonha é muito difícil e por causa disso, pela teoria, ela deveria ser um a pessoa amarga, infeliz e rancorosa. A Tonha é separada de um marido mequetrefe, mãe de 4 filhos, avó de um bebê lindo e acorda todos os dias antes do sol pensar em nascer.
Dia desses no almoço, a Tonha - na maior inocência- começou a comentar um "causo" sobre a escola dela (a Tonha tem mais de 30 anos e está correndo atrás de ter uma educação). Segundo ela, lá na escola que ela estuda os alunos PAGAM para fazer as provas. Eu pulei da cadeira:
"Como assim pagam Tonha? Não é escola pública?"
E ela: "É sim, mas eles dizem que não têm dinheiro para pagar a xerox e cobram 10 centavos por folha"
A escola da Tonha se chama Escola Municipal Deputado Ulisses Guimarães, localizada no Mutirão (Cidade Nova). Ela estuda no período da noite.
Continuei questionando:
"Como assim Tonha, eles não têm dinheiro pra tirar xerox?"
E ela: "É... Geralmente a professora avisa antes pra gente deixar o dinheiro ou vai pedindo na hora. O ruim é que nem sempre o povo pode pagar. Um dia desses teve uma prova de ciências e a xerox ia dar 20 centavos. Teve gente que não fez porque não tinha o dinheiro."
Vocês entendem o grau disso tudo? As pessoas não têm 20 centavos para pagar uma prova e ainda são punidas por isso. Segundo a Tonha, a professora diz que "não vai tirar do bolso dela. Quem tem faz, quem não tem não faz".
Primeiro: onde foi parar a grana que deveria ser usada para comprar esses papéis e pagar essas xerox? Segundo: estão sucateando a educação desse povo, onde já se viu uma pessoa não poder fazer uma prova por causa de 20 centavos?
Segundo a Tonha, isso não acontece só na escola dela. Na escola das filhas dela o caso se repete. Aqui as escolas : Escola Estadual Raimundo Holanda de Souza e Escola Estadual Professor José Lindoso.
Eu confesso que fiz minha parte. Falei com amigos jornalistas, eles foram atrás, mas infelizmente os alunos estão com medo de falar e sofrerem represália, mas não é por isso que eu vou ficar calada vendo a Tonha - pessoa que tanto me faz bem - e os seus colegas, serem humilhados desta forma. Se alguém quiser ajudar, é fácil: espalhe esse texto, mande pros amigos, pros amigos dos amigos, pras autoridades, pras autoridades das autoridades, enfim, espalhe. Não é só a Tonha que está sendo prejudicada, nós também estamos. Enquanto trabalhamos que nem cachorros e somos obrigados a pagar impostos, nosso dinheiro está indo pra Deus sabe onde!
É isso. Ajudem!
Camila Menezes Baranda
sexta-feira, 24 de abril de 2009
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