Eugênio Scannavino trabalha na Amazônia há 20 anos e nunca viu uma seca como a atual. Na semana passada, em uma comunidade que o infectologista paulista atende uma pessoa quase morreu afogada em um dos muitos pontos de areia movediça formados no leito seco dos rios e dos lagos da floresta. Mas não é a estiagem o que mais o preocupa. Para ele, o grande risco é o de epidemias.
Quando se graduou em Medicina na UFRJ, em 1985, Scannavino queria trabalhar onde pudesse ser mais útil que na cidade grande. Viajou pelo Brasil e, ao chegar à Amazônia, teve certeza de que ali estava seu destino. Arrumou um emprego como médico da Prefeitura de Santarém, no Pará, e, dois anos depois, fundou o Projeto Saúde e Alegria, ONG que garante saneamento básico, imunização e educação para 30 mil pessoas em 150 comunidades de ribeirinhos no Alto Tapajós. Seu trabalho é prova de que existem soluções simples e baratas para muitos dos problemas sociais da Amazônia. Falta mesmo é vontade política. 'O descaso é pior que a seca', diz o médico. 'O governo só toma providências em momentos de emergência como o atual. Se toda a população recebesse cloro com regularidade, reduziríamos drasticamente a mortalidade infantil', diz o médico. 'É muito barato! Não precisa esperar uma calamidade. As crianças morrem todos os dias.
EUGÊNIO SCANNAVINO

Dados pessoais:
Paulista, 46 anos, médico infectologista
Trabalho social:Coordenador-geral da ONG Saúde e Alegria, na região de Santarém.
ÉPOCA - Quais serão as conseqüências da seca para a saúde da população?Eugênio Scannavino - Com a seca, comunidades em várias partes da Amazônia estão, estiveram ou podem ficar isoladas. O barro que se forma no leito dos rios não é duro. Você não entra a cavalo, porque o cavalo afunda. Andando, também. De canoa, não vai. Outro dia, um ribeirinho já estava afundado até a boca na areia movediça quando nossas equipes o encontraram. Só sobreviveu porque estava na área das comunidades do Saúde e Alegria. Tiveram de reanimá-lo. Está tudo mais difícil. A água começa a ficar escassa, fica empoçada. Essa água já era ruim. Não existe saneamento nem nos grandes centros, onde só 50% da população tem acesso a água tratada, e 8% coleta de esgoto. E, mesmo o esgoto coletado, inclusive hospitalar, é todo jogado nos rios. É nesses rios que os ribeirinhos captam água para beber. Quando o nível está mais baixo, a concentração de microrganismos é maior - e eles não têm cloro. Aí começam os surtos de diarréia e aumenta a mortalidade infantil.
ÉPOCA - Os rios são menos contaminados nas regiões mais isoladas?
Scannavino - Sim. A contaminação vem desde lá do Peru. A cólera, por exemplo, quando apareceu no Peru, demorou três semanas para chegar a Manaus. A gente via o caminho claramente. Ela ia contaminando os ribeirinhos. Pulou as nossas comunidades, onde há saneamento.
ÉPOCA - Cloro é caro?
Scannavino - Nas comunidades atendidas pelo Saúde e Alegria, se produz cloro com uma bombinha movida a energia solar, que custa R$ 350. Com essa bombinha, 1 litro de água e 1 colherzinha de sal, você produz 700 mililitros de cloro por dia, o suficiente para 200 famílias.Isso acabaria com a diarréia e a parasitose, reduziria drasticamente a mortalidade infantil, que, na Amazônia, gira em torno de 60 a 70 para cada mil nascimentos. Além de diarréia,as crianças morrem de doenças imunizáveis. Nas comunidades do Saúde e Alegria, por exemplo, onde a água é tratada e as crianças são vacinadas, o índice de mortalidade infantil está em 23,3 por mil. Ou seja, sabemos como resolver o problema. É uma medida de saúde pública simples. No Brasil não temos um sistema de saúde. Temos um sistema de doença. Não se investe na prevenção.
ÉPOCA - O problema não é falta de recursos?
Scannavino - É falta de vontade política. Um rebanho tem de ser sacrificado por causa de febre aftosa. Logo vêm televisão, jornal, escândalo, todo mundo fala nas vacas com febre aftosa. Ninguém fala nos milhares de crianças que morrem por falta de saneamento e vacinas.
ÉPOCA - Como estão as comunidades do Saúde e Alegria?
Scannavino - Estão isoladas também, porque o rio está seco. Mas estão bem melhor que as outras. Não estão passando fome porque têm produção em sistemas agroflorestais. Produzem pequenos animais, têm plantio e horta, além de alguma fruticultura. Produzem geléia e mel. E, como têm rádio, uma que tem arroz troca com a outra que tem feijão. Todas têm água limpa e tratada, têm poço, cloro. Além disso, a gente tem um barco especial, a ambulancha com hidrojato, que entra em áreas bem rasas. Na várzea do Rio Amazonas nós não trabalhamos. Lá as comunidades estão em situação de calamidade.
ÉPOCA - A seca dificulta seu trabalho?
Scannavino - Complica muito. Os barcos não chegam. Tivemos de parar com os programas de infra-estrutura. Com a seca, não dá para levar uma caixa-d'água até uma comunidade.
ÉPOCA - Quando a seca acabar, o perigo de surtos estará afastado?
Scannavino - Não. O pior vem quando voltam as chuvas.
As moradias não têm sanitário. Os dejetos são lançados no rio ou na terra.
A primeira chuva arrasta as fezes para os rios e lagos.Aí é que começam os grandes surtos.
O Esgoto das populações urbanas,inclusive hospitalar,é jogado nos rios.
O ribeirinho não tem outra fonte para captar água.
Na seca,fica tudo impoçado.É pior ainda''
ÉPOCA - Essa seca é normal?
Scannavino - Acontece de vez em quando. Houve uma grande seca em 1963. Mas neste ano... Uma seca dessas já é muito grande se acontecer em dezembro, o final do período sem chuvas. A seca já estava brava desde setembro. Até dez anos atrás, a Amazônia era completamente regular. No mês certo chovia, depois dava seca. Parecia um relógio. De lá para cá, nunca mais vi um ciclo regular da Amazônia. Está tudo desregulado, inclusive o ciclo das plantas. Os agricultores não sabem mais quando plantar.
ÉPOCA - Por quê?
Scannavino - Por causa do desmatamento. Tudo isso é sintoma que o ambiente está doente. A Amazônia tem 3,5 milhões de quilômetros, o equivalente à Europa Continental. Desse total, um terço sofre forte pressão de grupos interessados em ocupar a floresta. Nos últimos 30 anos, foram desmatados 17% da Amazônia brasileira. Em nossa área, a taxa de retirada da floresta foi bem alta, com a entrada da pecuária e da soja. No ano passado, o desmatamento cresceu mais de 500% na região. Santarém está na frente do arco do desmatamento que vem corroendo a Amazônia do sul para o norte. Essa derrubada de vários quilômetros quadrados de floresta, em poucos anos, causou uma mudança climática na nossa microrregião. Nosso microclima ficou mais quente e seco. Nas áreas que trabalhamos, no entroncamento do Rio Tapajós com o Amazonas, existem reservas extrativistas, que são florestas nacionais, e contiveram o desmatamento. Mas o resto da região foi detonado.
ÉPOCA - Comunidades tradicionais não participam do desmatamento?
Scannavino - Na Amazônia brasileira vivem hoje 20 milhões de pessoas, 2 milhões das quais estão espalhadas pela floresta em comunidades extrativistas. São ribeirinhos, pescadores artesanais, quilombolas, índios e colhedores de coco, babaçu ou castanha. Essa população vive em perfeita harmonia com a natureza, sem destruir nada. Precisa da mata viva para se manter. Essa gente é a solução para salvar a Amazônia. Não é nenhum ambientalista de fora que vai salvar a região. Só que as comunidades vivem num isolamento social, econômico. Os produtos delas não têm capacidade de entrar nem no mercado nacional. Abrir o mercado para os produtos que mantêm a floresta em pé seria uma solução ambiental e social. Cinco mil hectares de pastagens empregam sete pessoas. A mesma área de agroflorestas garante o sustento de 800 pessoas. E preserva o clima.ÉPOCA - As ONGs já não fazem esse trabalho?
Scannavino - São soluções restritas a algumas populações pontuais. O Saúde e Alegria, por exemplo, atinge uma área pequena. Trabalhamos com 150 comunidades. Só no município de Santarém há mais de 800. Na Amazônia toda são 30 mil. O papel das ONGs não deveria ser substituir o Estado, é ter agilidade para desenvolver metodologias e tecnologias sociais inovadoras para que o Estado possa absorver e ser mais eficiente. A gente já sabe o que tem de ser feito na Amazônia. O desafio é pegar nossas tecnologias e dar escala de governo a elas.
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