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Piora do mercado agrícola e ações paliativas reduzem desmatamento em 40%. Mas falta de medidas concretas ainda ameaça a floresta
Daniel Beltra/Greenpeace
A maior floresta tropical do planeta enfrenta um momento decisivo em sua história. O desmatamento acumulado nos últimos anos chegou a patamares tão elevados - são 313 mil quilômetros quadrados de devastação, o equivalente a uma Itália inteira - que é chegado o momento de o país fazer uma escolha. Enquanto o governo tenta faturar politicamente uma redução no ritmo da destruição, especialistas avisam que o alívio é temporário e pode ser explicado tanto pelas medidas governamentais como pelas forças do mercado. O processo de invasão de terras públicas e a exploração predatória de madeira podem voltar, com força total, a qualquer momento. Estudo inédito do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), com base em imagens de satélite, revela que foram desmatados 15.909 quilômetros quadrados no último período medido, que vai de agosto de 2004 a julho deste ano. É 40% menos que a taxa recorde do período anterior, mas não há tempo para ilusões. Esse ritmo ainda é tão impressionante que, em uma década, igualará o volume de árvores derrubadas em 478 anos - desde a chegada de Pedro Álvares Cabral até o último ano do governo Geisel.
Quem puxa os índices de desmatamento é o Estado de Mato Grosso. Responde por 59,9% da devastação de toda a Amazônia. Sozinho, ele eliminou 9.527 quilômetros quadrados de floresta. Os milhares de hectares que todo ano viram pasto ainda chocam o mundo. Até porque essa destruição, diferentemente do que se costuma dizer, não traz progresso. Pesquisa inédita mostra que os municípios que mais desmatam permanecem pobres (leia à pág. 72). Nos países desenvolvidos, como nos EUA e na Europa, a marcha é invertida. Lá, as florestas estão crescendo de novo.
O Estado do Mato Grosso foi responsável pela maior parte do desmatamento. Ao alto, desmatamento ilegal no município mato-grossense de Sinop
A taxa de desmatamento oficial só deve ser anunciada em dezembro. Ela é obtida pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) a partir de imagens do satélite Landsat, dos EUA, que é o mais preciso. O que o Imazon fez foi usar dados preliminares do Inpe, fornecidos por dois satélites da Nasa, e desenvolver equações que corrigem as possíveis distorções. 'A margem de erro da estimativa é de 661 quilômetros quadrados', explica o geógrafo Carlos Souza, que coordenou a pesquisa.
Uma série de fatores conjunturais contribuiu para frear o desmatamento. Um deles foi a criação de áreas protegidas - último recurso para tentar salvar a floresta. Foram 12 milhões de hectares nos últimos dois anos. Dados acumulados desde a década de 70 mostram que a perda de floresta é de 1,5% em áreas protegidas, contra 12% em áreas sem proteção. O problema é que a pressão sobre esses redutos é cada vez maior. Três reservas de Rondônia já perderam mais de 60% de sua cobertura vegetal. O setor agropecuário, um dos principais motores do desmatamento, também deu sua contribuição. O desmatamento, que começa com a grilagem de terras e a retirada da madeira, geralmente termina na pecuária extensiva. Mas os produtores vivem uma das piores crises da História, enrolados em dívidas e sem crédito para expandir suas fronteiras. Em junho, reuniram 25 mil agricultores na Esplanada dos Ministérios numa manifestação batizada de Tratoraço: o Alerta do Campo. O setor continua em baixa.
A queda no índice deve-se também ao aumento das ações de fiscalização do governo. 'Foi criada uma verdadeira operação de guerra', diz José Maria Cardoso da Silva, da Conservação Internacional. A Operação Curupira, que aconteceu em junho, no Mato Grosso, desmontou uma poderosa quadrilha de madeireiros. A ação conteve o desmatamento justamente em um mês que, segundo dados históricos, registra um índice de devastação elevado. Em relação a 2004, o desmatamento em junho deste ano foi 93% menor. Antes de ser preso, o bando chegou a destruir 43 mil hectares de floresta. Só que operações policiais como essa, embora atenuem o problema, não sustentam uma política ambiental. O Ibama atualmente tem 800 fiscais para cuidar de uma área de 5 milhões de quilômetros quadrados. Ou seja, cada funcionário tem de dar conta de 6.500 quilômetros quadrados - o equivalente a meia Irlanda do Norte para cada um.
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